Aventuras antropológicas

Um pesquisador incansável

Geraldo Pinheiro em imagem dos anos 1950.

Ao longo de sua vida, a pesquisa de temas amazônicos foi uma constante na vida de Geraldo Pinheiro, atravessando diversos campos do saber, dentre eles a História, a sociologia e a Antropologia.

O ineditismo de suas pesquisas é inconteste. Já no início dos anos 1940, se envolveria com os estudos etnográficos, na senda de sua preocupação com a atuação do alemão Teodor Koch Grümberg (1872-1924), cujos estudos inventariou em importante publicação para a Revista Arquivos.

Em paralelo, Geraldo Pinheiro vinha também inventariando a passagem de pesquisadores estrangeiros pela Amazônia, chagando a divulgar artigos sobre alguns – como William James – pelos jornais da cidade.


Sem jamais abandonar o interesse pelo estudo das temáticas indígenas, de suas religiosidades e ritos, já no final dos anos 1940 seu foco de interesse foi lentamente se desdobrando para alcançar tanto a cultura material de populações ancestrais, com ênfase no estudo de sua produção ceramista, quanto a presença de cultos religiosos de matriz africana na Amazônia, com atenção para o Candomblé e um sistemático estudo dos “batuques” que se haviam enraizado em Manaus desde pelo menos o final do século XIX. Neste sentido, Geraldo Pinheiro percorreu diversos desses centros, fotografando e entrevistando em gravador de fita de rolo, diversas mães de santo, como Joana Galante, Leocádia, Esperança e Zulmira, além de outras lideranças religiosas da cidade, desenvolvendo com elas uma relação de proximidade e amizade duradora que perdurou até o final de sua vida.

Mãe Zulmira flagrada pela lente de Geraldo Pinheiro em dois momentos (década de 1950/60 e década de 1980)
Áudio de pesquisa realizada por Geraldo Pinheiro com Mãe Zulmira. Data provável: década de 1960. Há perceptível distorção do som original.

.

Essa sua profunda imersão no universo da cultura negra no Amazonas feita por Geraldo Pinheiro pode ser aquilatadas tanto pela assimilação que encontrou na obra de antropólogos importantes, como Nunes Pereira e Roger Bastide, quanto pelos diversos depoimentos que lhe dirigiam os que dele receberam colaboração na forma de primorosas informações de pesquisa. O antropólogo canadense Chester Gabriel, por exemplo, lhe confidenciou certa vez um comentário de seu orientador na Universidade McGill (Canada), Prof. Jerôme Rousseau, sobre essa colaboração. Dizia ele: “You are very lucky to have met Geraldo Pinheiro. I would have liked to meet someone like that in field”. Não era sem razão, já que por meio dessa colaboração o antropólogo canadense chegaria a inventariar a presença de nada menos que 173 espaços dedicados ao Candomblé na cidade de Manaus no início dos anos 1970.

As pesquisas de Geraldo Pinheiro se espraiaram para outras áreas do saber, ficando muitas delas apenas em esboço, como uma História Curiosa de Manaus, onde delineava o interesse de escrever capítulos sobre temas do cotidiano da cidade e de alguns de seus episódios insólitos. No campo do Direito suas pesquisas resultaram numa copiosa e bem documentada História do judiciário Amazonense, escrita em três volumes ao longo dos anos 1960/1970. Sem tempo para as revisões que julgava necessário deixou-a como inconclusa e, portanto, sem publicação. A falta de tempo foi também o motivo que retardou aquele que seria seu projeto mais ambicioso e inconfessado. O de escrever uma enciclopédia da Amazônia. Essa era a lógica por trás dos incontáveis fichários que guardavam milhares de recortes de jornal e anotações de livros em centenas de guias que se ordenavam alfabeticamente. Com temáticas variadas, as guias eram, em verdade, a base para os verbetes que tencionava redigir.

Uma extraordinária rede de contatos

Carta de Roger Bastide à Geraldo Pinheiro, datada de 21 de fevereiro de 1949.

Para Geraldo Pinheiro, a pesquisa acadêmica nunca foi um ato solitário, assim como o processo de conhecimento, desviando-se de pavonices e pavulagens, era construção coletiva para servir à sociedade. Por essa razão, via-se sempre no papel de humilde colaborador na obra maior da ciência e do conhecimento. Quem o conheceu e com ele conviveu sabe que nunca buscou projeção acadêmica, nem títulos, assim como também nunca tentou projetar-se entre os grandes, embora grandes fossem suas pesquisas. O fato de nunca ter abraçado o mundo acadêmico, jamais significou que o desprezasse. Bem ao contrário, A correspondência estabelecida por Geraldo Pinheiro com escritores e pesquisadores acadêmicos foi intensa, rica e diversificada.

“Sua produção literária é mais de natureza epistolar. Esconde-se nas bibliotecas particulares de outros cientistas de renome, pesquisadores eméritos, espalhados pela enormidade do mundo”

Almir Diniz

Começou a dinamizá-la no início dos anos 1940, quando tiveram início suas primeiras pesquisas etnográficas, e se estendeu até praticamente o fim de sua vida.


Dessa intensa troca de correspondências tomaram parte intelectuais importantes, desde literatos e jornalistas até expoentes da história, da sociologia e da antropologia, numa escala local, nacional e internacional. Hilgard Sternberg, amigo e professor da Universidade de Berkley, na Califórnia, em mais de uma oportunidade se mostrou impressionado com ela.

“Você tem uma extraordinária rede de contatos internacionais. Gente de letras e de ciências que tanto deve à generosidade com que você lhes dedica o seu tempo e suas energias”

Hilgard O’Reilly Sternberg

O Etnólogo Curt Nimuendaju (c .1945) Acervo de Geraldo Pinheiro.

Lá estão nomes como o de Arthur Cezar Ferreira Reis, que fora seu professor durante o ginásio; Nunes Pereira, que fora também amigo de seu pai quando com ele se deslocou do Maranhão para Manaus, e nomes como Luis da Câmara Cascudo, Júlio Cesar Melatti, Carlos Araújo Moreira Neto,  Roberto Cardoso de Oliveira, Afonso de Carvalho, Djalma Batista, Oracy Nogueira, Agnello Uchôa Bittencourt, Casemiro Jorge Beksta, Frederico Barata, Edson Soares Diniz, Altino Bertier Brasil, Ari Pinheiro, Aureliano Monteiro, Oneyda Alvarenga, Rodolpho Martius, Verrísimo de Melo, dentre outros. Entre os estrangeiros a lista de contatos e amizades era também grande e incluiu nomes como os de Curt Nimuendaju, Robert Lowie, Alfred Metraux, Roger Bastide, Stephen G. Baines, Harald Sioli, Egon Schaden, Hubart Fichte, Chester Eugênio Gabriel, Peter Paul Hilbert, Dorothee Nince, Protasio Frikel, Richard Collier, Ervin Osterreicher, Miguel Menendez, Josepj H Einhorn, Antonio Giacone, Robert W Shirley, Tekla Hartmann.


Carta de Curt Nimuendaju à Geraldo Pinheiro, datada de 21 de agosto de 1944.
Carta de Afonso de Carvalho à Geraldo Pinheiro, de 22 de janeiro de 1945.
Carta de Wanda Hanke à Geraldo Pinheiro, de 26 de novembro de 1949.